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Terça, 25/04/2017 - Hoje é dia de Oxumaré (São Bartolomeu) Renovação, crescimento e prosperidade. Contas verdes e amarelas.
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Os Índios

Somos unânimes em admitir que até pouco tempo o chamado "descobrimento do Brasil" era algo pacificamente aceito por amplos setores da sociedade brasileira e que apenas de uns anos para cá começou a ser debatido e questionado. Como se explica que até há alguns anos essa visão oficial de Portugal tenha sido aceita? Podemos dizer que vários fatores interferiram nesse processo:

1. Falta de vozes proféticas

O Brasil não teve vozes tão vigorosas como a do dominicano espanhol Bartolomé de Las Casas, que viveu em Santo Domingo e no México, no século XVI, ou do jesuíta peruano Antonio Ruiz de Montoya, que denunciou os massacres e a escravização dos Guarani praticada pelos paulistas no século XVII.
Tivemos sim, um padre Antônio Vieira (1608-1697), mas que foi mal resgatado pela história do Brasil, sendo hoje lembrado mais como literato. Outros jesuítas se posicionaram contra a escravização indígena e contra o modelo colonial, como Miguel Garcia e Gonçalo Leite, mas foram, por isso mesmo, obrigados a retornar a Portugal, pois eram pessoas com "excesso de escrúpulos" (Leite, Hist. Da Comp. De Jesus no Brasil, 2:227-30). Hoje são totalmente esquecidos.
Os jesuítas conhecidos e consagrados pela história oficial são os que defenderam o projeto colonial português, como Anchieta, Nóbrega, Cardim e Simão de Vasconcelos.

2. A ausência de uma elite colonial nativista e letrada

Esse foi um outro elemento que dificultou o surgimento de uma visão crítica.
Esta carência deveu-se à não instalação de cursos superiores no Brasil e ao controle das publicações aqui permitidas na época colonial.
Tanto o rei de Portugal quanto a pequena elite portuguesa que aqui vivia não tinham interesse em estimular a cultura no Brasil.
O Brasil só foi conhecer cursos superiores no final da época colonial, quando a família real se mudou para o Rio de Janeiro, em 1808. Quem desejasse estudar naquela época tinha que ir para Coimbra.
A expulsão dos jesuítas e de outras congregações religiosas, em meados do século XVIII, só veio agravar a situação cultural da colônia.
Uma elite brasileira mais independente surgiu apenas no final do século XVIII, com estudantes que tiveram contato na França com ideais da revolução francesa ou norte-americana, como os intelectuais de Ouro Preto, da Inconfidência Mineira, ou os irmãos Andrada, que exerceram importante papel na luta pela independência.
Dentro desse quadro de atraso cultural, não se pode esquecer a nefasta atuação do Santo Ofício, isto é, da Inquisição, que censurava e controlava toda publicação em Portugal e nas colônias. Um livro para ser impresso precisava passar por três a quatro censores, como foi o caso de O etíope resgatado, de 1758 (Vozes, 1992), de autoria do padre baiano Manoel Ribeiro da Rocha, sobre a libertação dos escravos.
Livros e jornais eram terminantemente proibidos de serem impressos no Brasil. O máximo que se tolerava era a publicação de manuais de oração ou estatutos de confrarias.

3. O surgimento de uma elite colonial inferiorizada

Nesse contexto não é de se admirar que tenha surgido no Brasil colonial uma elite envergonhada, complexada, que introjetava a visão colonial da superioridade portuguesa e assumia a condição inferior de colonizado. Era o mazombo, assim pejorativamente chamado.
Importantes figuras da época desprezavam a cultura local, como Gregório de Matos, talvez o maior representante da literatura brasileira no século XVII. Poeta satírico, escarnecia dos nativos, sobretudo da nascente cultura mestiça, tão marcada pelo elemento indígena.
A pressão social durou muito tempo, como notou o inglês John Luccock, ao descrever a vida social do Rio de Janeiro, no início do século XIX: "Nas peças que representavam, ridicularizavam-se as manias, vícios, dialetos e outras peculiaridades da colônia, o que corrigiu os gostos do público" (Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Itatiaia/Edusp, 1975[1821]: 163).
Apesar desse tempo estar longe, herdamos muita coisa desse passado, como se vê em algumas expressões brasileiras, que denotam inferioridade: canário da terra (de penas amarelo-escuras), em contraposição ao canário do reino (delicado e de penas de um amarelo bem claro) ou a banana da terra (banana nativa, rústica e que só serve para fritar).
Ainda hoje essa visão preconceituosa contra o nativo perdura, como o adjetivo tupiniquim, que vai significar o degenerado, o inferior, como a expressão "democracia tupinikim". O mesmo se pode dizer do vocábulo botocudo, infelizmente usado há pouco até por nosso presidente da República, ou os vocábulos caipira, bugre (índio), com forte conotação pejorativa.
Além desse etnocentrismo português, fomos influenciados também pelos povos de cultura tupi, que foi o substrato da elite mestiça, que nos legaram essa tendência de abertura ao novo, ao estrangeiro, desvalorizando o que é da terra.
Frente ao outro, os povos Tupi tiveram duas posturas: a de admiração e endeusamento para com o diferente distante (que poderia ser aliado); e de discriminação e preconceito para com o diferente próximo (que poderia ser inimigo).
O diferente distante foi acolhido como deus nos primeiros anos da conquista. Os portugueses receberam o nome de karaíba, que significava "coisa santa", gente com grandes poderes (cf. Anchieta, [1584], Cartas, escritos... 1933:332); e os franceses foram chamados de maíra ou maïr, um dos maiores demiurgos da mitologia tupi (id. ib.).
Ao passo que o diferente próximo era inimigo e devia ser combatido. Daí os nomes de Tobajara (inimigo) ou Tapuia (atrasado).

4. Uma historiografia brasileira eurocêntrica

Quando o Brasil começou o processo de emancipação cultural, durante o império, seus grandes historiadores, como Varnhagen, tinham uma formação européia, com uma visão muito preconceituosa contra os povos indígenas. Não sem razão escreveu: "Para fazermos melhor idéia da mudança ocasionada pelo influxo do cristianismo e da civilização, procuramos dar uma notícia mais especificada da situação em que foram encontradas as gentes que habitavam o Brasil: isto é, uma idéia de seu estado, não podemos dizer de civilização, mas de barbárie e de atraso. De tais povos na infância não há história: há etnografia" (Hist. Geral Brasil, S. Paulo, [1854]1956, 1:30. Grifo nosso).
Isto marcou toda a historiografia brasileira, que até há pouco afirmava que os povos indígenas não eram o objeto da História e sim da Etnografia. Como conseqüência, nossa história começava na Europa, especificamente em Portugal, e não no Brasil. Os povos indígenas surgiam de relance no século XVI, desaparecendo em seguida.
As novas gerações brasileiras, marcadas por regimes autoritários, como o de Vargas, e mais recentemente o dos militares, passaram a cultuar anti-heróis, como os bandeirantes paulistas, o Duque de Caxias e tantos outros.

5. O nativismo romântico

No campo da literatura, se o nativismo do século XIX veio reafirmar nossas raízes nativas, tentando quebrar as amarras culturais com a metrópole, trouxe consigo muitas ambigüidades que reforçavam ainda os padrões europeus.
Surge o índio genérico, como o fizeram o poeta Gonçalves Dias, o romancista José de Alencar ou o músico Carlos Gomes. Seus personagens, embora vestidos de pena, tinham a cabeça do conquistador, sendo os grandes aliados dos portugueses. O bom índio era o "indígena colaborador", aquele que participou da conquista do Brasil e o que mais se aproximava dos padrões ditos "civilizados".
Assim o Brasil-colônia viveu cerca de 400 anos voltado para a Europa e de costas para suas origens. As revoltas nativistas e a grande presença indígena em várias regiões fizeram com que aos poucos os brasileiros começassem a sentir que algo se passava. Sem resolver muitos problemas de identidade, por muito tempo vivemos uma espécie de esquizofrenia cultural, sentindo que éramos mestiços, mas mantendo um discurso e uma referência estrangeira.
Somente agora, no final do século, por conta do movimento negro e indígena, o povo brasileiro está conseguindo quebrar os laços ideológicos que por tanto tempo nos impuseram essa visão do império português.

Créditos:
CIMI - Conselho indigenista Missionário
Por:  Benedito Prezia

 
 
 
 
 
 

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