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Domingo, 26/03/2017 - Hoje é dia de Ibejis (São Cosme e Damião) Entidades que se apresentam de maneira infantil.
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O Contador de Histórias

Quem já teve a feliz oportunidade de ouvir histórias contadas por um bom contador, que, inclusive, dispõe de pessoas para escutá-lo, sabe que é opinião corrente entre os ouvintes o prazer que constitui ouvir contar histórias. E não só ouvir, mas participar da reunião onde a partir da conversa informal vão surgindo narrativas, adivinhas, ditos populares, cantigas e tantos outros textos que, no decorrer da noite vão sendo atualizados e ao mesmo tempo revividos.

Os fragmentos de conversas aqui transcritos foram coletados em reuniões em torno do contador Manoel Domingos Pereira, Seu Manoel, realizadas em Mogeiro, agreste acaatingado da Paraíba, distante 100 km de João Pessoa.

- Escutar as histórias que ele conta é bom prá ajudar a passar o tempo e esperar a hora. Afirma a mulher em "trabalho de parto", na maternidade onde o contador é vigia noturno, local onde foi realizada parte da pesquisa.

- Essas histórias são a cara de quando eu era menino. Diz outro ouvinte, este, um senhor de mais de setenta anos sempre muito atento à conversa, divertindo-se muito com as histórias contadas.

- Eu já sei de um bocado de histórias mas não sei contar como ele conta. Parece que não mas a gente aprende coisas com essas histórias que ele conta. Depoimento de uma enfermeira do plantão quase sempre presente às reuniões.

- Nas histórias não tem só mentira. A história tanto faz a gente se esquecer como se lembrar da verdade. Garante Seu Manoel, consciente de que um contador de histórias desempenha um papel na sua comunidade, de que o seu ato de contar encontra eco na vida dos ouvintes. Cada participante é levado por uma motivação a participar da roda que se forma em torno do contador de histórias.

Conversar sobre as histórias contadas, revendo aspectos mencionados enquanto todos estão reunidos, faz surgir outros textos que são veiculados na performance[1]. Esses textos são escolhidos ao sabor da conversa que permeia todo o serão. A escolha dos textos a apresentar vai sendo feita pelo contador, também a partir das sinalizações dos seus ouvintes. Um gesto, uma palavra de enfado ou de aplauso diante de uma proposta de história a ser contada pode mudar o rumo da escolha do contador. A conversa informal introduz as histórias e estas trazem aspectos a pontuar na conversa. Num movimento circular constante, determinado pelo ritmo das propostas que conduzem aos variados tipos de textos como adivinhações, anedotas, cantigas, toadas de aboio, versos de embolada, provérbios, "causos", letras de músicas, capítulos de novelas televisivas da atualidade, folhetos de cordel vão surgindo as histórias curtas ou longas a serem contadas. Histórias fabulosas [2], histórias de diabo, histórias de assombração, histórias de adivinhação, entre outras classificadas pelo contador.

Como, muitas vezes, as pessoas presentes são ouvintes habituais e já conhecem muitas histórias do repertório do contador, acontecem pedidos para que seja recontada tal ou tal história, uma vez que são estabelecidas predileções. E, não é raro que se discuta qual a história que deve ser apresentada em seguida. Muitas das conversas [3] referem-se diretamente aos textos e/ou são retroalimentadas por eles. Seqüências narrativas que lembram algum aspecto do cotidiano, uma personagem em especial, algum ponto que o contador tenha enfatizado e chamou a atenção dos presentes. Há um senso crítico que se manifesta nos ouvintes e que também funciona como modulador da performance.

Dá-se, inclusive, com mais freqüência, a abordagem de assuntos que, aparentemente, não dizem respeito aos contos e sim a aspectos culturais da região e a preocupações que afligem a todos do grupo, como é, no caso dessa região, onde foi feita a pesquisa, o problema da estiagem, que resulta numa falta de água quase crônica, o que vem determinar muitos dos usos e costumes da região, além de desenhar a paisagem e submeter a população aos rigores climáticos impostos pela seca.

Essa temática, aproximada das populações agrárias nordestinas, é recorrente na composição das narrativas apresentadas, expondo agravantes como fome, desemprego e conseqüente êxodo rural com todas as suas implicações, além dos problemas no campo com relação à posse da terra, o que muito preocupa a população daquele município paraibano, formada, em sua maioria, de agricultores e de pessoas diretamente ligadas às culturas de subsistência (milho, feijão, batata doce. mandioca).

Assim sendo, as histórias aproximam-se dos ouvintes, conduzindo-os através dos encadeamentos das seqüências narrativas, proporcionando-lhes viagens através de reinos encantados que se escondem nas terras da sua terra, nas pedras que lhes são, ao mesmo tempo, familiares e desconhecidas, nas curvas dos riachos em que muitos deles já tiveram oportunidade de pescar quem sabe o mesmo peixe que habita o reino encantado da história. Quando, no conto, a enteada, maltratada pela madrasta, pastoreia as cabras, ela o faz sob um sol forte, já conhecido de todos os presentes, abrigando-se à sombra de um "pé de umbu", árvore frutífera própria da região [4]. Toda a cena é nordestina, adivinhando sofrimentos já vividos, pintando paisagens há muito conhecidas.

Em uma das sessões, depois de contada uma história em cuja introdução o contador enfatizava principalmente a temática do trabalho duro, da fome, um rapazinho franzino que fazia parte da performance, naquela noite, comoveu outras pessoas do grupo, provocando um silêncio constrangido quando comentou:

- Já trabalhei muito com fome. E completou: mas nunca tremi não. Já vi gente no roçado tremendo de fome. E o contador parte do problema levantado, ampliando o comentário, dando oportunidade a todos de opinar sobre aquela situação que para muitos parece ser "o destino do pobre". E são apontados culpados por aquele sofrimento que os acomete há muitas gerações. Um sentimento, ao mesmo tempo de resistência e de resignação, motiva alguém a afirmar:

- Só Deus!... Porque de governo não se pode esperar nada não. Pro pobre só vem piora.

Mas outra pessoa presente, retomando o veio do contar, recupera:

- E aquela história, Manoel, que o pobre comia a farinha com o cheiro de carne assada que vinha da casa do vizinho rico? E o contador "pega a deixa" e inicia outra narrativa que retoma esse motivo da seca e da fome como razão para a demanda do herói 5. Mas observe-se que não é sempre que o contador aceita contar a história sugerida. Há vezes em que a partir do "gancho" para a história a conversa se acalora e vem motivar a apresentação de uma outra narrativa que vai desaguar em outro problema que pode ser simplesmente referido, discutido ou mesmo ignorado pelos presentes.. Fatores climáticos, por exemplo, são motivadores tanto das conversas como das demandas das personagens nos contos.

Como a região observada tem na agricultura de subsistência e na pecuária suas principais atividades econômicas, as estações de chuva e de estio constituem em todas as suas dimensões dados relevantes para o município e seus habitantes. A estação de estio é muito longa, tendo sido registrado, em alguns anos mais rigorosos sete a oito meses sem chover ou, por outro lado, a chuva nos meses de inverno é insuficiente para garantir uma provisão de água que ofereça suporte às necessidades da região no período de estiagem. A população depende de açudes, barreiros, riachos temporários, cacimbas que secam depois do inverno. Além disso precisa conviver com o fato de o sub-solo da região abrigar um lençol de água salgada, o que inviabiliza a possibilidade de irrigação da lavoura e abastecimento de água potável. A provisão de água constitui um fantasma com o qual se tem de conviver diuturnamente e que inspira rituais diversos de prever "o tempo das pegadas de chuva", a sua duração e intensidade.

Quando João, herói da história, volta para casa, vitorioso em sua demanda, casado com a princesa, é dia de São José e chove. Aí já se adivinha que a felicidade está completa pois, numa comunidade agrícola como a de Mogeiro, agricultores muitos daqueles que ouvem a história, João é festejado pela bela colheita que terá pois se acredita que quando chove a 19 de março, dia do santo protetor dos agricultores, "o ano vai ser bom de chuva": sinal de riqueza. Chover no dia de S. José indica que se terá fartura de milho e feijão verdes no "tempo de S. João e S. Pedro", nas festas juninas, quando são feitas adivinhações não só para verificar as possibilidades de bom casamento mas também para "ver as pegadas de chuva".

Nessa região que não dispõe de tecnologia para a superação da estiagem, durante o ano inteiro, o agricultor vive em função da chuva, assim, procura desvendar os segredos das águas para uma boa colheita. E o contador depõe: [6]

- Vem janeiro. Janeiro aqui prá gente ninguém faz planta em janeiro. Aí vem janeiro, fevereiro a gente já tá se balançando. Qualquer chuva que caia aqui que molhe, a gente planta. Já não perde. Aí vem março que é mês de S. José, né? Muita gente planta mais nas vésperas de S. José porque dá milho que em S. João tá maduro. Secando, já. Se não está chovendo, tudo seco e você, de repente, olha na frente e vê um vento rodopiando assim, vuummmm! Aí você diz: estamos perto de ter chuva. Se você vê gado no campo, desembestado, corre pra’qui, corre pra’colá, aí você diz: olhe, tá perto de ter chuva.

O homem convive com a natureza e tenta dominar-lhes os caprichos, mesmo reconhecendo "que hoje em dia não é mais como antigamente". E como diz em tom divertido o contador: "o tempo mudou e não foi só a mini-saia". Segundo foi muito enfatizado nas reuniões, "as profecias de hoje não acertam como acertavam em outros tempos" .Mas não será por isso que se vai deixar de arriscar "uma fezinha". descrevendo algumas maneiras de realizar esse ritual de revelação, Seu Manoel explica:

- É pelo S. João. Experiência é pelo S. João e aí a gente faz. Não tem reza, não tem nada. Então você pega uma garrafa, garrafa d’água. Enche ela, deixa ela bem cheinha mesmo, tampe ela, vede a boquinha dela. Cave um buraco, quer dizer que aqui é a fogueira. Cave um buraco quase debaixo da fogueira, antes da fogueira pegar. Enfia a garrafa nesse buraco aí cobre ela de terra e toca fogo na sua fogueira.(...) Se o ano for bom de inverno, e se o ano for fraco de inverno. Entendeu? Se o ano for bom de inverno, aquela garrafa tá cheia, né? Entorna. Derrama a água. Quando você cavar ela, tirar ela no outro dia, tá molhada, todinha den’do buraco. Quer dizer que ela, a tampa dela não suportou a água. Entendeu? E se o ano for fraco de chuva, ela seca. Você, vamos dizer, se o ano for de estio, (...) aquela água em vez de sobrar água, ela baixa. A água baixa. Entendeu? Aí no outro dia que você tirar a garrafa, você sabe se o ano é bom de inverno ou se vai ser fraco de inverno. Isso aí é a experiência da garrafa d’água. E tem a experiência de S. Luzia...

E sempre esperando "sinal de chuva", o contador revela aspectos a observar na natureza. Enquanto ele fala, pessoas no grupo acenam afirmativamente com a cabeça como a confirmar o seu depoimento.

- (...) enquanto o inverno não pega, o galo de campina não pia pela madrugada. E quando o inverno pega, o galo de campina, de quatro da manhã, ou seja, de quatro e meia, o galo de campina trina, quer dizer, canta, né? Aí você conhece, o canário o galo de campina, tudo trina. Enquanto tá no verão(...) você não vê passarinho cantar não. Galo-de-campina, canário.(...) Galo-de-campina só canta no inverno.(...) na seca você não vê não. Pode fazer o ano todinho de sol mas na estação de inverno ele canta.

Acredita-se na revelação vinda não só a partir da oração católica intitulada Salve Rainha, declinada, em parte, somente até a frase: "e depois desse desterro, nos mostrai" pelas moças que fazem adivinhações no período junino para que lhes seja mostrado se vão ou não casar-se e em que circunstâncias. Sem haver necessidade, nestes casos, de apelar para a declamação de fórmulas ou orações, observam-se as reações naturais de alguns animais que também são interpretadas objetivando a previsão de chuva. Observar esses comportamentos, entre outros aspectos da natureza, também configura "experiências de chuva". Faz-se necessário saber interpretar os sinais. Exemplo desse procedimento foi mencionado em algumas das reuniões.

- Você de noite, isso sem chuva, aí você escuta trrrr! Aí você diz: ah! O tiriri tá cantando. Vamos ter chuva. Tá vendo? É uma espécie de experiência pra’gente. Quando você vê as caranguejeiras andando no seco, pode plantar que vai chover. Vai chover! Tá entendendo? Muitas coisas assim que adivinha chuva.

Em uma comunidade agrária cujo meio de subsistência é retirado do solo, todos estão, direta ou indiretamente ligados às questões da terra, seu uso, sua distribuição, incluindo lucros e prejuízos advindos dessas atividades. Como não poderia deixar de ser, a questão da reforma agrária, com seus conflitos e agora confrontos chegaram a Mogeiro, tendo-se registrado invasões em fazendas, enfrentamento entre proprietários rurais, trabalhadores sem-terra, policiais militares, numa guerra que se avizinha e acirra, atingindo também aqueles que não pretendem ver-se envolvidos nessas contendas.

Na época em que foi feita a pesquisa (ano de 1991), gravando as histórias e o depoimento do contador, esse problema ainda não tinha tomado, inclusive na Paraíba, o rumo que tomou, como movimento organizado em todo o país, acirrando a violência no campo, inclusive no município de Mogeiro. Mas a questão agrária já era referida como um problema que se delineava e tomava corpo, na visão dos que trabalham a terra, das pessoas que, como Seu Manoel, fazem o seu "roçado" na terra alheia. Na época, o contador afirmava:

- Na terra em que entra o boi, o homem sai. (...) A agricultura em Mogeiro tá dando lugar a capim. Antes era tudo cheio de agricultura ao redor de Mogeiro. Hoje, é só capim. Você não vê? Um ano a gente broca o terreno, encoivara, prepara, planta. Com mais dois anos, ali é plantado capim pro gado.

Esse problema povoa as histórias com personagens tais como o fazendeiro que ocupa o lugar que originariamente seria do rei, muitas vezes com poder de vida e morte sobre os moradores das suas terras. Um dos maiores prêmios conquistados pelo herói da história é, casando com a filha do rei, herdar o reino, "aquelas terras todinhas, a perder de vista", como aconteceu com o João que conseguiu voltar da sua demanda ao inferno, trazendo, como lhe foi ordenado, os três cabelos de ouro do diabo 7. A terra representa, também na história, para uma comunidade agrícola, o bem maior, um meio seguro de garantir o sustento da família, além de proporcionar um status de classe dominante.

A dificuldade de se trabalhar a terra, a jornada dura que isso representa é, também conhecida de todos os presentes à reunião. Quando, em uma ocasião, se discutia os prós e os contras de se ter um roçado, o contador tentou desempatar a contenda, expondo a sua opinião:

- Que é bom, é. Mas roçado dá muito trabalho e nem sempre dá lucro. A gente tem que lutar com muita dificuldade, sujeito a não chover, a chover fora do tempo, a largata. Muitas vezes, a gente prepara a terra, limpa e fica esperando a chuva. De tanto esperar, o mato cresce de novo. Aí tem que ter outro trabalho pra limpar.

E a conversa cresce e toma vulto, todos querendo dar a sua opinião e falar das sua dificuldades nessa área, incluindo a falta de infraestrutura do município para ajudar o pequeno agricultor.

- (...) Pois é assim: primeiro, se o mato é grosso, você derruba, broca o mato[ ]. Destoca. Depois vai limpar, encoivarar [ ],tocar fogo nas coivaras. Depois, corta o terreno com trator, se tiver dinheiro pra pagar, ou com cultivador [ ]. Depois planta de acordo com a chuva.

A alegria da colheita é sempre precedida por um trabalho estafante de vários dias e sobressaltos de vários meses. Essa dificuldade é expressa nas histórias, geralmente utilizando uma personagem demoníaca: o diabo, que em várias histórias, para ganhar mais uma alma, além da prometida por um homem, e levá-la ao inferno, é logrado pela mulher, esposa do condenado, que arma uma trama para vencer o demônio. A grande maioria das tarefas que o capeta deve realizar consta de atividades ligadas à preparação de um roçado, no que diz respeito a limpar o terreno, retirando-lhe todas as pedras, limpando uma "bola de mato com muita jurema"(vegetação densa que tem espinhos), entre outras obrigações. Como o diabo não consegue realizar plenamente as tarefas impostas, perde a contenda.

O trabalho braçal, "pegar no cabo da enxada", pesado e mal remunerado está presente nos contos, identificados, em muitos aspectos, com a realidade do dia a dia da comunidade. As pessoas que ouvem e atualizam as histórias ouvindo e contando o fazem, muitas vezes, como se vissem aspectos da sua vida espelhados naquelas narrativas. As personagens têm muitas das preocupações de qualquer um daqueles ali presentes. O mundo da história segue, em muitos aspectos, a mesma orientação da vida, ali, naquela cidade pequena.

Mas o gosto pelo contar, entre outros motivos, talvez resida na possibilidade de, através do mundo das narrativas, tornar-se possível garantir um defecho favorável a todos, onde o mais fraco sempre encontra uma maneira de vencer o mais forte, onde a justiça é exercida com rapidez e eficiência, através da palavra do rei que, na história, é sempre justa e não volta atrás. E aí, tudo se dissolve ou fica no ar, numa trégua nas relações de exploração entre os homens, quando, por fim, não há mais conflito. Pelo menos, por enquanto, toda a trama é resolvida, entrando por perna de pato e saindo por perna de pinto, para, com ordem do senhor rei, cada um contar mais cinco.




 

 
 
 
 
 
 
 
 
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