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Domingo, 30/04/2017 - Hoje é dia de Ibejis (São Cosme e Damião) Entidades que se apresentam de maneira infantil.
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A Rede do Ceará

Em Fortaleza, ali na Rua Major Facundo, o americano encontrou a Agência de Viagens que procurava. Foi entrando e, no pouco português que sabia, perguntou:
- Mim falar inglês. So poquito de português.
O gerente gritou lá pra dentro:
- Valdísia! Vem cá, dá uma informação ao gringo.
Valdísia, jovem magra, de seios grandes, e de boca carnuda com enormes e lindos dentes chegou sorrindo.
- Yes, Mister. Estudei inglês seis anos no IBEU. May I help you?
James conversou durante muito tempo com Valdísia. Queria alugar um Buggy, aproveitar o fim de semana visitando as praias de Fortaleza e depois, durante um mês, realizar um estudo histórico e sócio-econômico da carnaúba.
Valdísia ficou surpresa.
- Por que a carnaúba?
- Eu trabalho para a indústria Johnson nos Estados Unidos e a grande fortuna da família é originária da importação e fabricação da cera de carnaúba. Daí porque estou aqui, prá pesquisar e escrever um livro que provavelmente terá início no século XIX, quando foram fabricadas as primeiras velas com cera de carnaúba, exportadas até para a Rússia.
- Olha que sou guia de turistas aqui em Fortaleza, com diploma e tudo, mas confesso que o que você está falando, pra mim é novidade.
Como era sexta-feira, e no fim do expediente, os funcionários vieram escutar a preleção de James, que era traduzida pela Valdísia. James, alto, magro, louro e sardento, com seus óculos sem aro, lembrava a exata figura de um tímido professor universitário. Durante uma hora, com todos os detalhes, falou sobre a maravilhosa palmeira carnaúba, chamada pelo sábio Humboldt de "A Árvore da Vida", que produzia óleo de cozinha, cera de lustrar assoalho e mil utilidades na medicina e na alimentação.
Lima, o boy da Agência, encerrou a conversa: 
- Ixe! Serve pra curar pereba.
Finalmente chegou o Buggy alugado por James. Valdísia deu todas as explicações do seu funcionamento e mostrou com detalhes, no mapa, quais as melhores praias para James conhecer. James perguntou:
- Amanhã é sábado, você trabalha?
- Não.
- Gostaria de lhe pagar como guia e ter sua companhia para conhecer a cidade.
As dez horas, Valdísia, na porta do hotel, sugeriu:
- Vamos à Prainha, no caminho visitamos a histórica Aquiraz, primeira capital do Ceará.
- Sou um bom turista, sigo todas as sugestões da minha guia.
Na saída da cidade, James morreu de rir quando Valdísia traduziu a tabuleta de um motel:
- Motel popular - aceitam-se casais a pé.
Na Igreja de São José em Aquiraz, James comentou que esperava encontrar, como na Bahia, Igrejas ricas em ouro e imagens.

A guia Valdísia deu ao professor uma aula do que era o Ceará desde o início da colonização.
- Dizem que a origem do nome, embora muito controvertida, vem de Saara, já que nossa costa lembra aquele deserto pelas grandes dunas e quantidade de areia. Eu acho que é a versão verdadeira, já que antigamente se escrevia Seará, e até
camelos vieram da África para serem usados como transporte. A pobreza de nossas igrejas decorre do fato da pequena quantidade de escravos africanos que recebemos, era a mão de obra barata que fazia a riqueza dos senhores feudais. Como nossas terras são pobres, principalmente pela irregularidade das chuvas, os escravos eram enviados para regiões onde a lavoura era mais próspera. Uma coisa que todo o cearense se orgulha é de um jangadeiro conhecido como "Dragão do Mar", que chefiou a nossa abolição da escravatura muitos anos antes do resto do país. Vamos comer cuscuz? Pare ali naquele bar, é o melhor da estrada.
- Cuscuz.. que é isso?
- Não dá pra traduzir. É tapioca com goma, coco ralado, tudo do forno e com cerveja bem gelada.
James só curtiu a "beer" brasileira bem gelada, e ao chegar na Prainha, deslumbrado com o panorama selvagem de dunas, coqueiros, marzão verde e rústicas cabanas cobertas de folhas de carnaúba, gritou:
- Que belo é o Ceará!
Dona Raimundinha, proprietária da barraca "Cacimba de Dentro" recebeu Valdísia com alegria:
- Ô xente! Já andava agoniada de saudades. A danada sumiu faz mais de um mês! Tá amigada com o gringo?
- Arre-égua! Tô de guia. Traz coco com cachaça e patinhas de caranguejo.
- O gringo tem cara de gente fina, será que não prefere lagosta?
- Fica pra depois.
James provou a cachaça com caju, com abacaxi, com limão, e tira gosto de carne seca, queijo do sertão, ova de camuripim e até comeu paçoca.
No fim da tarde não se agüentava mais em pé, Valdísia pedia à Dona Raimundinha uma rede para ele descansar.
- Tem uma novinha que acabou de chegar de Maranguape, é das boas, feita a mão em fundo de quintal.
Já passava das oito da noite quando Valdísia acordou o James.
- Está na hora de voltarmos para Fortaleza.
James caminhou até a praia, sentou no Buggy e olhou para o céu.
- Que linda noite! Que brisa suave e gostosa essa que vem do mar…É uma pena voltar para um hotel com ar condicionado, TV e barulhos de carro. Não dá pra dormir aqui? Você pode?
Dona Raimundinha explicou:
- Só temos este quarto para alugar aos turistas. Dão duas redes, o gringo dorme na rede de Maranguape e você na outra. Vou preparar uma fritada de caranguejo.
Valdísia e James caminharam até a praia. Descalço, foram molhar os pés na água morna do mar. Ele achou que os altos coqueiros e as adormecidas jangadas eram poesia pura. Ela contou a história do Ceará, as grandes secas, falou da "muié rendeira", de José de Alencar e de sua Iracema, a virgem dos lábios de mel.
- E você, é virgem?
Foi tão inesperada a pergunta, que Valdísia deu uma grande gargalhada.
- Não, fui desvirginada por um namorado muito doido. Mas até hoje meu pai não sabe. O seu Vilobaldo é uma fera. Ainda bem que não fiquei buchuda. E você? É casado?
- Não. E sou virgem.
- Não acredito.
- Juro.
- Então vamos trocar de redes. Quem dorme na rede de Maranguape sou eu.
- Por que?
- Existe uma lenda que diz que homem como você, que já passou dos trinta, e é virgem, se dormir numa rede destas, vai passar uma noite muito agoniada e não amanhece o dia.
Antes de dormir, James examinou cuidadosamente sua rede de Maranguape.
- Ela é muito maior que a sua.
- É uma rede de casal.
- Estes babados dos lados, pra que servem?
- Aqui no Ceará nós costumamos dizer que é igual às pernas na mulher. Não serve pra nada sempre se joga pros lados…
- É de costume fazer amor numa rede?
- O povão, sim. Na sociedade, acho que não, já que existe um dito popular que diz "homem de responsabilidade não trepa na rede".
Valdísia achou o americano meio desajeitado no ato do amor, mas também pudera, ele estava perdendo a virgindade logo numa rede de Maranguape…




 

 
 
 
 
 
 
 
 
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