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Segunda, 21/08/2017 - Hoje é dia de Omolu, Obaluaiê (São Roque e São Lázaro) Deus da cura de doenças. Contas pretas e vermelhas.
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Bandeira 2

Li, muito apreensivo que a Bahia vai criar o táxi turístico, isto é, aquele motorista educado de paletó e gravata, carrão último tipo, curso de RP e sofisticado ar britânico.
Confesso que sou contra. Vou sentir saudades dos velhos fuscas sujos e amassados que rodam há mais de dez anos em Salvador. Motoristas de shorts, camisetas surradas e suadas, sandálias e galho de arruda na orelha, que como Caymmi, fazem parte do folclore da minha querida Bahia. Motoristas que, em cada parada de sinal de trânsito, dizem gracinhas para a mulata ou crioula que passa, e descontraído, na maior intimidade, comenta com o passageiro:
- O doutor também gosta da negritude? Viu só a bunda da "motorista de fogão" que passou? Conheço esta peça, mora no Chame-Chame, qualquer dia vou conferir.
No táxi baiano o conforto é substituído pela simpatia, talento, hospitalidade e relativa honestidade do motorista. Passageiro e condutor são uma descontração só. É efêmera a desconfiança, e a divertida malandragem do condutor torna a corrida emocionante. No final das contas o turista, tratado com dedicação e carinho, paga a mais apenas 2 ou 3 dólares.
Tomar um táxi em Salvador é, para mim, uma curtição…

Já no aeroporto 2 de Julho, o motorista, combinando o preço da corrida até o hotel, pergunta:
- O doutô não prefere ir pela orla, vendo as praias de Salvador?
No meio do trajeto, ele complementa:
- Sabe doutô, esqueci de dizer que a viagem pelas praias tem mais de quatro quilômetros. Mas não vale a pena o senhor pagar só dois mil cruzeiros de diferença e ver os coqueiros de Itapõa e este marzão azul?
- Vale.
- E si o doutô quiser, pode fumar.
- E aquele aviso "Por favor não fume?"
- Ah, é só pra me dá a oportunidade de ser gentil. O cliente fica satisfeito e no fim da viagem sempre dá um agradinho. O doutô me oferece um cigarro?
- Tire um.
- Si o doutô quiser, sem pagar mais nada, a gente pode parar numa barraca e tomar umas batidas de caju e umbu, ou em Amaralina, onde minha prima faz o melhor acarajé da Bahia.
Outro dia tomei um velho e sofisticado fusca em Salvador, e o motorista comentou:
- O doutô não é da Bahia, não?
- Sou do Rio.
- Logo vi, tem cara de turista.
- É por isto que você está usando a bandeira 2?
- Não doutô, é porque já passa das 6 horas da tarde.
- Explica melhor esta história de bandeira 2.
- Pois é, doutô, aqui na Bahia sábados, domingos e feriados e di noite a gente roda com bandeira 2. A partir das 6 horas da tarde já é di noite.
- A noite a gasolina é mais cara?
- Já vi que o senhor é um gozador. Vou explicar. Pobre só si diverti di noite. Ou vai pra boemia no bar pra tomar umas e outras, ou vê novela em casa e depois si acerta com a mulher. A bandeira 2 é por isto: invés de tá na sacanagem, eu tô aqui trabalhando feito um condenado e aí só tenho que ganhar dobrado. O doutô não concorda comigo?
- Concordo.
- Dia de chuva não, aí eu só uso a bandeira 1. Apareceu o sol, todo mundo nas praias dançando e sambando e eu aqui dando duro dos infernos, eu taco a bandeira 2. Num é uma sacanagem? O doutô concorda cumigo?
- Estou de pleno acordo.
Outra vez, eu estava em Salvador e era 13 de dezembro. Tomei um táxi e o motorista foi logo virando a bandeira 2.
- A esta hora?
- É feriado, dia de Sta. Luzia.
- Você está errado, não é feriado porque os bancos e o comércio estão abertos.
- Já vi que o senhor é turista. Lá na Baixa, perto da Igreja da Nossa Senhora do Pilar tá maior carnavá. Tem barracas e o afoxé Filhos de Gandhi tá na rua. Eu di manhãzinha, fui lá buscar uma garrafa de água milagrosa e fazer minhas orações.
- O padroeiro dos motoristas não é São Cristóvão?
- Também é. Mas Sta. Luzia num é padroeira dos olhos e dos cegos?
- É.
- E então? Motorista qui num enxerga bem vai dar, mais dia menos dia, a maior porrada cum o carro! Logo, a gente tem que homenagear a Santa e cobrar bandeira 2.
Uma coisa que o turista tem que entender na Bahia é que a bandeira 2 é usada nos períodos que começam a partir de 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, Iansã, e depois é festa que não acaba mais, ou melhor dizendo, só acaba em março.
O mês de junho também é santificado. Logo bandeira 2. For a do período das festas e folias, a bandeira 2 também é usada em casos especiais como um jeitinho muito próprio baiano.
- Porque bandeira 2?
- O senhor não tem uma grande mala? Então são 2, logo bandeira 2.
- Qual a razão de ter virado a bandeira 2? 
- É a ladeira. Aqui na Bahia, quando um táxi ingrena segunda pra subir, tem que mudar pra bandeira 2, gasta mais gasolina.
- Ah, e na descida?
- Também bandeira 2, porque tem que descer ingrenado em segunda e gasta freio.
Na Bahia, como no Rio, São Paulo ou Buenos Aires, existe a bandeira 3 ou 4. É aquela famosa corrida noturna de portas de boite e shows folclóricos.
O Vilobaldo, motorista do meu Corcél-táxi era falante e alegre.
- Doutô, o senhor que é viajeiro e gente fina me tira uma dúvida. Este pessoal de televisão que dá notícias e explica as coisas num ganha por minuto de conversa?
- Ganha.
- E o motorista de táxi? Distrai o freguês, fala de futebol, de política, da carestia de vida, do tempo, das praias e festa, das crenças e igrejas, não deveria receber mais do que marca na bandeira 2?
- Devia. Você sabe que qualquer guia na Europa recebe 300 dólares só pra falar de sua cidade aos turistas em uma visita de poucas horas?
- Doutô, já ouvi falar disso. O nosso Sindicato e que não está com nada e não luta pela classe. Quer saber também a minha opinião, doutô? Turista tinha que pagar por quilo! Num é o seu caso, que o senhor é magro, mas agora mesmo peguei um passageiro paulista que devia pesar uns 100 quilos. Já imaginou os meus amortecedores? Nas curvas, o meu carro saía de banda - que nem siri patola. Se o presidente do sindicato num fosse tão frouxo, dava logo a ordem - Mais de 70 quilos, bandeira 5!
No Rio Vermelho, tomei um dia o táxi do gordo Ubiracim, conhecido na praça como "barriga de confeti". Escarrapachado no seu Brasília de luxo, foi logo puxando conversa:
- Doutô, eu sou filho de Xangô que o Deus da justiça, daí que só cobro pela bandeira 2.
- Muito bem. E o táxi tá dando pra viver?
- Doutô, estamos na pior depois que a Polícia Militar veio pras ruas.
- Multam vocês?
- Nada disso, doutô, é o problema dos assaltos.
- Tem muito assalto aqui em Salvador?
- A disgraça taí, doutô. Tinha! Antigamente, sem a Polícia Militar nas ruas, era assalto toda hora em tudo que era canto. O povo, apavorado, tomava táxi na porta de casa só pra não andar 3 ou 4 quarteirões, com medo.
- E agora?
- Acabaram com os assaltos. Uma disgraça, tá todo mundo andando a pé, ninguém toma mais táxi.




 

 
 
 
 
 
 
 
 
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